segunda-feira, 23 de março de 2009

Jovelina, uma pérola rara da MPB

Jovelina Faria Belfort, mais conhecida como Jovelina Pérola Negra, nasceu em 21 de julho de 1944, no Rio de Janeiro, mais precisamente no distrito de Miguel Couto, município de Belford Roxo, limítrofe com o município de Nova Iguaçu, cidades da Baixada Fluminense.Morou nos bairros da Pechincha e Pavuna, ambos subúrbios do Rio de Janeiro.Trabalhou como empregada doméstica, lavadeira e vendedora de linguiça.Integrou a Ala das Baianas do Império Serrano.Cantora, compositora e partideira frequentou, ao lado de Jorginho do Império e Roberto Ribeiro, o Botequim da Escola da Serrinha.
No início da década de 1980, ao lado de Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Beto Sem Braço, Ana Clara, Fundo de Quintal, Deni de Lima, entre muitos outros, participou do Pagode da Tamarineira, do Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos. Desta geração de sambistas surgiu o que se convencionou chamar "Pagode carioca", com tradição musical mais ligada ao partido-alto.
Em 1985, ao lado de Zeca Pagodinho, Mauro Diniz, Pedrinho da Flor e Elaine Machado, participou da coletânea "Raça brasileira", lançada pela RGE, na qual interpretou duas composições que viriam a ser seus primeiros sucessos: "Bagaço da Laranja" (c/ Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho), cantada em dueto com Zeca Pagodinho, e "Feirinha da Pavuna" (Confusão de legumes), composição de sua autoria. Neste mesmo ano lançou o primeiro disco solo, do qual se destacaram "Pagode no Serrado" (Marquinhos Pagodeiro e Zeca Sereno); "Boogie-woogie da favela" (Serginho Meriti) e o grande sucesso do LP, a faixa "Menina você bebeu", de autoria de Arlindo Cruz, Acyr Marques e Beto Sem Braço. Ainda neste disco foram incluídas de sua autoria "Preparado da vovó" (c/ Zeca Sereno e Tatão), "É isso que eu mereço" (c/ Zeca Sereno) e "Água de poço". No ano seguinte, pela gravadora Som Livre, foi lançado o LP "A arte do encontro" reunindo Dona Ivone Lara e Jovelina Pérola Negra.
Em 1987, pela RGE, gravou o LP "Luz do repente". No disco foram incluídas "Conselho de vizinho" (Arlindo Cruz e Sombrinha), "Calango no morro" (Beto Sem Braço e Paulo Vizinho), "Filosofia de bar" (Everaldo da Viola), "Sem amor sou ninguém" (Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho) e "Banho de felicidade", de autoria de Adalto Magalha e Wilson Moreira, que se destacou como o grande sucesso do disco, no qual também foi incluída, de sua autoria, a composição "Mistura".
No ano de 1988 gravou o LP "Sorriso aberto", disco do qual se destacaram as faixas "Falso malandro" (Adilson Bispo e Zé Roberto), a faixa-título "Sorriso aberto" (Guará) e "Não tem embaraço", de sua autoria em parceria com Carlito Cavalcanti. No ano seguinte, pelas RGE, lançou "Amigos chegados", no qual incluiu de sua autoria "Poeta do morro" e "Comunhão de bens", ambas em parceria com Carlito Cavalcanti, além da faixa-título "Amigos chegados", de autoria de Luizinho e Arlindo Cruz.
Em 1991 gravou o CD "Sangue bom", no qual interpretou "No mesmo manto" (Beto Corrêa e Lúcio Curvelo), "Confusão na horta" (Adilson Bispo, Zé Roberto e Simões PQD), "Sarau" (Beto Corrêa e Beto Sem Braço) e a faixa-título de Beto Corrêa e Lúcio Curvelo.
Em 1993 no CD "Vou na fé" interpretou, entre outras, "Vai na fé" (Agnaldo, Jorge Carioca e Marquinho PQD), "Malandro também chora" (Mauro Diniz), "O que é, o que é?" (Arlindo Cruz e Franco), "Flor esmaecida" (Toco da Mocidade) e de sua autoria "Peruca de touro" (c/ Carlito Cavalcanti) e "Águas de cachoeira" (c/ Labre e Carlito Cavalcanti).
Em 1996 lançou o último disco "Samba de guerreiro", no qual interpretou, entre outras, "Samba guerreiro" (Toninho Geraes e Sérgio Beagá), "No meu barraco" (Sombra, Franco e Sombrinha), "A dança do caxambu" (Jorge Zagaia e Xangô da Mangueira) e de sua autoria "Feirinha sem confusão", em parceria com Marco Aurélio.
Entre 1985 e 1996 gravou nove discos, sendo dois deles, uma coletânea (“Raça Brasileira”, 1985) e (“Arte do encontro”, 1986, com Dona Ivone Lara).
Sua morte repentina em 2 de novembro de 1998 chocou o mundo do samba, ocasião em que, mais uma vez, foi reconhecida como a herdeira musical de Clementina de Jesus e a melhor partideira carioca, apenas comparada a Aniceto do Império, Deni de Lima, Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz.
No ano 2000, pela coleção "Bambas do samba", a gravadora Som Livre relançou seis de seus discos de carreira e ainda a coletânea "Pérolas - Jovelina Pérola Negra". No disco foram reunidos alguns de seus maiores sucessos, entre os quais "Luz do repente" (Marquinho PQD e Arlindo Cruz e Franco), "Banho de felicidade" (Adalto Magalha e Wilson Moreira), "Menina você bebeu" (Arlindo Cruz, Acyr Marques e Beto Sem Braço), "Sorriso aberto" (Guará), "Feirinha da Pavuna" (Jovelina Pérola Negra), "Pagode no serrado" (Marquinhos Pagodeiro e Zeca Pagodinho), "Bagaço da laranja" (Jovelina Pérola Negra, Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho) e "Peruca de touro", de sua autoria em parceria com Carlito Cavalcante.
Sua filha Cassiana seguiu a carreira de cantora, sendo considerada uma das revelações do samba carioca em 2005, na ocasião do lançamento do disco "Raça Brasileira 20 anos - O verdadeiro pagode", disco do qual participou.
Em 2006 Maria Bethânia interpretou a composição "Água de cachoeira" (c/ Labre e Carlito Cavalcante) no disco "Pirata".
No ano de 2007 foi lançado pela gravadora Som Livre o disco "Jovelina Pérola Negra duetos - É isso que eu mereço". No CD, um tributo à cantora e compositora, vários convidados gravaram em dueto póstumo seus maiores sucessos, destacando-se as participações de Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho nas faixas "Luz do repente" (Arlindo Cruz, Franco e Marquinho PQD), "Feirinha da Pavuna" (Jovelina Pérola Negra) e "Bagaço da laranja" (Jovelina Pérola Negra, Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz); Fundo de Quintal em "Banho de felicidade" (Adalto Magalha e Wilson Moreira); Almir Guineto em "Menina você bebeu" (Arlindo Cruz, Beto Sem Braço e Acyr Marques); Beth Carvalho na faixa "Sonho juvenil" (Guará da Empresa); Ana Costa, Juliana Diniz e Márcia Vegas em "Sorriso aberto" (Guará da Empresa); Marcelo D2 na faixa "Catatau" (Guará da Empresa); Zélia Duncan em "Laços e pedaços" (Wilson Moreira e Nei Lopes); Alcione em "Liberdade plena"; Leci Brandão na faixa "No mesmo manto"; Cassiana e Kamilla, filha e neta de Jovelina gravaram a faixa-título "É isso que eu mereço" (Jovelina Pérola Negra e Zeca Sereno); Seu Jorge em "Filosofia de bar" e Jorge Aragão na faixa "O dia se zangou", de Mauro Diniz e Ratinho, além do grupo Revelação, entre outros dos 17 convidados para o CD.
Em 2009 a secretária Municipal de Cultura Jandira Feghali e o prefeito Eduardo Paes se reuniram com a comunidade de Pavuna e visitaram a Praça Ênio, local onde será construída a Lona Cultural Jovelina Pérola Negra. Com projeto do arquiteto e subsecretário de Cultura, Washington Fajardo, a lona trará um novo conceito para as construções desse tipo, até então apoiadas em modelos transitórios com armação de lona, que com o tempo se degradam facilmente. Para a Lona Jovelina Pérola Negra a construção será permanente e fará uso de conceitos de ecoprédios (telhado verde). A obra, segundo o projeto, terá três mil metros quadrados de área construída e poderá recepcionar 400 pessoas sentadas e mais 300 em pé. Segundo a secretária: “No teto, haverá um gramado com telescópios do Planetário da Gávea que vai permitir às pessoas observarem o céu. Em todos os acessos vão ter rampas para deficientes. Na parte externa, vamos colocar uma estrutura para uma tela de cinema, em que o público pode ocupar a praça e assistir filmes a céu aberto”. Com o projeto já finalizado, a comunidade começou as discussões sobre o modelo de gestão da futura lona cultural, mobilizando também artistas locais, principalmente do grupo cultural “Na Pavuna”, integrado pela cantora Namay Mendes, os cantores e compositores Marko Andrade e Rubem Santana, Júnior e Jovem Cerebral, ambos da banda de hip-hop Stereo Maracanã, Deley de Acari e o poeta Lúcio Celso Pinheiro, além do escritor Mariel Reis.
Das muitas estórias sobre Jovelina Pérola Negra, principalmente dos seus palavrões e de seu bom humor, uma delas é muito famosa nas rodas de samba do Rio de Janeiro. A cantora estava fazendo uma temporada de shows no Teatro João Caetano e pediu um adiantamento. Quando lhe falaram que o valor seria posto no seu borderô ela respondeu: "Ninguém põe no meu borderô! Nem meu marido! Tá pensando que é assim?".


Por Euclides Amaral
(É poeta letrista, pesquisador musical,Publicou seis livros de poesias e um de contos. Em 2008 lançou “Alguns Aspectos da MPB” com 285 páginas e oito ensaios sobre o tema MPB, )

8 comentários:

Elida Kronig disse...

Caramba! Eu conhecia alguma coisa da Pérola mas agora que estou vendo que eu não sbaia nem da metade. Jóia rara essa Jovelina.
Cultura nunca é demais, né?
Parabéns pelo blogue, terei muito prazer em acompanhá-lo.

Beijinhos carinhosos

Dora Dimolitsas disse...

Pérola Negra
com certeza o meu amigo
Marko falou comigo
de seu blog e com certeza
é uma alegria poder
interagir com uma pessoa com tanto carisma amor as artes, e principalmente com tanto talento
estou feliz de
poder participar de seu blog
um abraço e parabéns Dora
Dimolitsas

Vaccari disse...

Grande Jovelina!!!
Saudade...

Lu Anna disse...

Sucesso para a Lona Cultural!
Boas produções tem que ser cultuadas e levadas adiante.
beijos

Fernando Gasparini disse...

MARAVILHOSO ESSE MATERIAL! VIDA LONGA A ESSE BLOG. PARABÉNS!!! BJS, FERNANDO.

Euclides disse...

Agradecemos muito os comentários de todos e pedimos que, caso tenham alguns dados sobre a obra e a vida da Jovelina que nos passe para que possamos melhorar ainda mais a biogafia da compositora.

Euclides Amaral

Teresinha Victorino disse...

Que lindo!!
Parabéns e sucesso pelo blog.

Anônimo disse...

A Lona e Ética: Eleição e Poder

A Secretaria Municipal de Cultura mantém em relação à Lona Cultural Jovelina Pérola Negra uma posição de ambivalência perniciosa. No último evento, promovido por esta entidade, na Praça do Pipi-Popo, com vistas à celebração do início das obras, equivocadamente manifestou-se no palco o rapper Jovem Cerebral, em discurso aos presentes no evento, lamentando que a Lona não fosse construída ali naquela Praça, porque a Prefeitura decidiu beneficiar a Praça Ênio, de modo miraculoso.

Isto não é uma verdade.

A Praça Ênio, favorecida por sua localização, situada em região plana, com acessos pelas principais vias rodoviária, ferroviária e metroviária, parecia fadada a abrigar o projeto que encontraria dificuldades se encampado, como disse o rapper Jovem Cerebral, para ser levado a este outro ponto do bairro, situado em um lugar com difícil acesso. O que não o desmerece, porque se situada à Praça Ênio, a Lona servirá aos interesses dos bairros adjacentes como da cultura em geral.

A ambivalência da Secretaria Municipal de Cultura se deve ao período eleitoreiro. Os postos políticos pertinentes a manutenção da estada de determinados indivíduos em nichos estratégicos, dependem de reeleição. Portanto, na figura daquele que a coordena, talvez o subsecretário de cultura o poltico Mario Del-Rei, sua movimentação se orienta pelo número de votos que pode ser angariado para a realização da manutenção do modus operandi da máquina municipal, ignorando até mesmo créditos aos organizadores da luta para vinda desse espaço de lazer e recreação a este último bairro do Rio de Janeiro. Se não se pode identificar nisso má-fé, como podemos denominá-lo?

A aliança de Mario Del-Rei, nesse período, com oportunistas que visam rivalizar a paternidade da Lona Cultural Jovelina Pérola Negra, é utilitarista, porque promete aquilo que não poderá cumprir: dar a paternidade deste projeto a outrem com vistas ao favorecimento de sua base eleitoral. Este artigo é um questionamento sobre a integridade, a conduta ética de uma discussão que ultrapassa as questões políticas, atravessa o campo pessoal e atinge em definitivo o campo social, porque não se pode abrir uma guerra campal sobre a possibilidade do enriquecimento cultural da região e não pode desviar a questão para interesses puramente eleitoreiros.

O evento ocorrido ontem (29/08) transparece a moral maquiavélica instalada em nossos políticos provincianos de que para se atingir ao poder vale qualquer aliança e também a distorção dos fatos. A Lona Cultural Jovelina Pérola Negra se posiciona a favor da comunidade, mas contra os alpinistas políticos, aos aproveitadores e detratores daquilo que é o cerne de seu projeto: a inclusão de uma região no mapa da cidade. Eliminando o desvio histórico e geográfico cometido pelas elites do Estado e pelos políticos utilitaristas.

Mesmo com discrição, acompanhamos as movimentações perversas em torno deste novo espaço, mas que já rende tantas polêmicas, mesmo sem ter sido de fato construído.

GRUPO CULTURAL NA PAVUNA